Tradição e Tecnologia

Aula inaugural da ACCS Onda Solidária uniu inclusão digital ao saber ancestral de liderança Huni Kuin, transformando a Biblioteca Central em espaço de diplomacia cultural.

No último dia 09 de março, o semestre letivo de 2026.1 da Licenciatura Intercultural Indígena deu início a ACCS de inclusão digital. O dia começou sob a coordenação das docentes Debora Abdalla e Katia Duarte, na disciplina ACCS - Onda Solidária de Inclusão Digital. Com apoio dos monitores do projeto Onda Digital, os estudantes indígenas trabalharam ferramentas tecnológicas. "A tecnologia aqui é vista como instrumento de autonomia e defesa de direitos", destacaram as coordenadoras durante a atividade matutina.

Após a finalização das aulas, o grupo seguiu para a Biblioteca Central da UFBA, onde ocorreu o ponto alto do dia: um encontro surpresa com Ninawa Pai da Mata e seu filho, Rua Buse Huni Kuin. O saguão da biblioteca foi ocupado por um grande círculo de diálogo, onde a liderança reconhecida mundialmente pela defesa da Amazônia compartilhou saberes sobre cosmologia e a importância da educação formal para o fortalecimento das causas originárias, além disso teve uma rodada de apresentações pois ali havia uma diversidade de povos e culturas.

O encontro foi encerrado com cantos tradicionais e o ritual do Toré, reafirmando a ocupação indígena no espaço acadêmico. A presença de Ninawa, que preside o Instituto Sociocultural Huni Kuin e atua em conferências globais sobre mudanças climáticas.

Originário do estado do Acre, Ninawa Pai da Mata é um pajé, guardião cultural e articulador político do povo Huni Kuin (Kaxinawá). Sua atuação é marcada pela defesa dos direitos territoriais e pela preservação da Floresta Amazônica, sendo hoje um dos principais representantes contemporâneos na transmissão de saberes ancestrais, práticas de cura e uso ritual de plantas sagradas. Como presidente do Instituto Sociocultural Huni Kuin, ele lidera iniciativas de valorização da língua Hãtxa Kuin e fortalecimento das tradições de seu povo.

No campo político e ambiental, Ninawa exerce um papel fundamental em articulações regionais como OPITAR, OPIRE e OPIRJ, além de contribuir para a construção do Conselho de Líderes Espirituais Indígenas (CLEI). Sua liderança estende-se ao cenário global, onde participa de conferências e fóruns internacionais como o Fórum Mundial da Ayahuasca e encontros interculturais na Europa e Américas para dialogar sobre sustentabilidade e mudanças climáticas. Ao liderar o festival Eskawatã Kayawai, ele promove o intercâmbio entre saberes indígenas e públicos internacionais, consolidando um movimento de protagonismo em que as lideranças tradicionais assumem papéis estratégicos na diplomacia cultural e na produção de conhecimento autônomo na esfera pública.

Por: Yan Rhuriz (Comunicação Social/UFBA)